Um Protozoário na corrente

Monday, November 21, 2005

Voei nas Tuas Ondas

Voei nas tuas ondas,

Naveguei na tua pele

E o meu coração abriu as portas

E mergulhaste em mim,

Irrigaste todas as células do meu ser,

que beberam de ti a vida,

por isso as minhas pernas tornaram-se as tuas pernas ,
as minhas mãos confundiram-se nas tuas,
os meu olhos tornaram-se os teus
a minha boca trocou com a tua
e eu passei a ser tu,
tu passaste a ser eu...

O meu coração abriu as portas
e entraste
dentro de mim.
Eu voei nesse mar com as tuas asas,
As que me deste
Á entrada
E deixaste ficar de presente
Á saída.

Chegaste de Noite

Chegaste de Noite

Chegaste de noite com os olhos a brilhar
Mãos desbravando caminhos entre espuma
Maré-cheia invadindo o meu corpo a balançar
Suavemente na alma tal como pluma

Lançaste uma fogueira no meu ventre a ferver
Saciando num ardor fome mal contida
Na praia dessa pele se espraiou o meu prazer
Soprando em minha boca ânima de vida.

Dois desejos fervilhando num só tormento
Quatro lábios misturando apenas um sabor
Os peitos cavalgando em veloz movimento,

Os corpos nus libertando um mesmo odor.
Gememos juntos nesse último momento:
Um paraíso de explosão multicolor

Tuesday, September 21, 2004

A tua força

A Tua Força

Que força foi essa que te puxou para os escombros escondidos do mundo,
Que te fez mergulhar num pântano opaco de asfixia lenta e dolorosa...

Que medo foi esse que te fez voltar para a toca primordial pequena e escura,
Aquele beco de enganosa solidão morna, pegajosa onde chove um
Pó verde...

Que fúria foi essa que te fez desbravar desertos semeados
De esqueletos de arame branco,
Valas comuns de almas mortas, clones de ti próprio voltados do avesso...

Que ardor foi esse que te pôs a voar num túnel cego nas duas pontas barricadas,
Labirinto-albergue de monstros viscosos alimentados
Com o teu sangue...

E que vontade foi essa que te fez vir à superfície clara
da vida,
Luz misteriosa e implacável viajando do fundo
Do teu código genético...

Que teimosia encantada te fez perseguir um outro alimento
De alma,
Alegria incontornavel e surpreendente que te aprisiona
A um sorriso de esperança radiosa...

Que lucidez foi essa que te acordou para um mundo de sentidos
Em alerta,
Prontos a celebrar a magia que explode na união de dois corpos que se entrelaçam deliberadamente...

Que coragem foi essa que te lançou na implacável luta
do dia –a –dia,
magnífica e cristalina doçura com que caminhas na rota
dos reais invencíveis guerreiros...




Saturday, September 11, 2004

Amor Feliz

Feliz.
Amor feliz.
Foi o que me deste a conhecer.
Um mundo novo,
Caminhos por descobrir
De sensações fantásticas.
Outras cores, melodias, perfumes.
Um olhar mais límpido, nítido, focado,
das maravilhas do universo.
As estrelas falam para mim
A noite cheira-me a ternura calma.
O mar vem abraçar-me de surpresa.

E se não estás comigo, doem-me os sonhos.
Arde-me o vento, o silêncio, os cabelos...
Coagula-me o sangue, o pensamento, os olhos...
Desfazem-se os ossos, o futuro, as mãos...
Estalam as veias, os gritos, o peito...
A alma escorrega-me do corpo, cai-me ao chão,
Cristalizada,
Adormecida,
Á espera do teu beijo.





Noite de Amor

Noite de Amor


Leva-me ao restaurante da tua alma.
Dá-me o crocante chocolate-mentol
Dos teus olhos nos meus dentes, a calma
Invadindo a garganta. Dá-me o Sol!

Traz-me o picante suave da pele,
Doce exótico, cereja e uva
Derretendo os arrepios em mel
Mas por favor traz-me o guarda chuva!

Quero a boca recheada de vida,
A serpente de vontade e dureza
Que vem macia, cega e comprida.

Quero a tua língua, sobremesa
Mais louca, longamente apetecida.
Mas por favor, quero a vela acesa!





Saturday, September 04, 2004

Esperar

Quero esperar por ti
rocha no meio do rio,
inabalável,
resistindo à erosão dos anos,
do lodo pardo;
freira ajoelhada
carpindo um rosário,
em curto-circuito,
alimentando o corpo
com um amor sem retorno,
murcho,
imutável,
pacientemente eterno;
como um fóssil incrustado nun mármore,
conservado desde o início dos dias
até ao fim do universo;
como uma migalha de pão, esquecida na tua camisola,
saboreando o teu suor,
odor familiar
queimando na memória
como uma melodia chorosa,
a falar de sangue, propagando-se no vazio
entre os planetaas até ás muralhas que não existem;
Quero esperar por ti
como um flamingo cor-de-rosa,
apoiado ora numa perna ora noutra,
descansando o corpo estátua
congelado no espaço-tempo;
como um monge tibetano
treinando yoga, pernas suspensas
por cima do pescoço
levitando a alma acima da cabeça
nun reino de silêncio
e de certezas que a calma desvenda;
como um fantasma branco
despedido do mundo,
refugiado numa outra dimensão
onde tudo é imenso e vazio.
Quero esperar por ti
simplesmente,
por teimosia,
sentar-me na vida,
cruzando os braços,
entrelaçando as lágrimas e
esperar...

Uma Prenda

Mergulhei nas palavras
nadei por entre as letras,
fui ao fundo branco azulejo das páginas despidas
para encontrar um colar de estrelas,
uma prenda simple.
Escolhi pérolas de muitos mares.
A primeira era amarela,
dor que me incendeia quando sorris.
Outra, cor de fogo,
luz que me persegue
quando vens aos meus sonhos.
Também descobri uma verde,
a cheirar a maresia dos teus olhos quando me doem.
havia um azul baço,
a lembrar as tuas mãos a tremer por me não quereres.
A última era preta,
casaco de luto por ainda estares morto...

A regeneração da Alma

Se eu estivesse agora ao teu lado, pegarte-ia na mão,
Beberias um chá de camomila com mel.
Dir-te-ia que compreendo que as dores de alma são como as cólicas de útero: muito reais.
Vão aumentando de intensidade até pensares que não aguentas mais e sentes-te a um passo da morte, mas logo abrandam lentamente e quase acalmam.
Depois o ciclo repete-se. Podes estar assim muito tempo ou tomar um analgésico. Alivia, mas só os sintomas. A cura reside na regeneração da alma.
Sabes?
O teu fígado é composto por milhões de hepatócitos que continuamente morrem e dão lugar a outros novos, frescos e cheios de vitalidade. Assim o teu fígado de hoje não será o da semana que vem, nem tão pouco é o mesmo do ano passado.
Também a tua alma é constituida por muitos pontinhos de luz que continuamente se renovam.
Se a tua alma está práticamente preenchida por pontinhos de fraca luz pálida, compondo um manto sem muito brilho, devagarinho eles vão sendo substituidos , um a um ,
sem dares por isso.
Um dia quando acordares de manhã a tua alma já não será a mesma: todos os seua pontinhos serão florescentes! Poderás então levantar-te da cama, olhar o céu e reparar que nunca o tinhas visto tão belo!